Ensaio sobre o autoritarismo e as resistências larvares: uma chave de leitura da luta por democracia no Brasil
Autoritarismo. Democracia. Interdisciplinaridade. Processos larvares. Resistências.
Esta dissertação propõe uma leitura ensaística sobre as permanências e invenções do autoritarismo no Brasil contemporâneo, tomando como recorte temporal o período entre 2013 e 2023. Parte-se da compreensão de que o autoritarismo brasileiro não constitui fenômeno excepcional ou restrito a momentos de ruptura institucional, mas se atualiza por meio de práticas, afetos, discursos e formas de organização social que atravessam diferentes períodos históricos. O objetivo é propor uma chave de leitura para compreender os processos de fragilização democrática, captura cognitiva e afetiva e atualização autoritária no país. Metodologicamente, a pesquisa assume o ensaio como prática epistêmica, compreendendo a escrita como exercício de pensamento em ato, sem a pretensão de produzir explicações totalizantes ou hipóteses fechadas. O percurso argumentativo articula elementos da formação histórica brasileira aos acontecimentos políticos da última década, considerando as jornadas de 2013, a crise política subsequente, o avanço da extrema direita, as eleições de 2018 e 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023. A análise aproxima a captura dos afetos das transformações produzidas pelo capitalismo cognitivo e pela noopolítica, buscando compreender como subjetividades, desejos e percepções se tornam territórios de disputa política. Ao mesmo tempo, a dissertação desloca o olhar das forças autoritárias para os processos larvares de resistência e para as microinsurgências que persistem no cotidiano e atravessam diferentes gerações. Experiências como os Caras-Pintadas, as ocupações secundaristas, a Reforma Sanitária, a Reforma Psiquiátrica, a política brasileira de HIV/Aids e a ampliação da presença política de pessoas trans são tomadas como expressões de germens democráticos capazes de persistir, transmitir-se, transformar-se e produzir novos modos de existência. Conclui-se que a democracia brasileira não pode ser compreendida apenas a partir de suas instituições formais ou de seus momentos de crise, mas também pelos movimentos cotidianos de resistência que, mesmo diante das permanências autoritárias, insistem em produzir presença, diferença e possibilidades de vida coletiva.