MARIAS: A VIDA DE MULHERES QUE TIVERAM SEUS FILHOS ASSASSINADOS PELA VIOLÊNCIA POLICIAL NO CEARÁ
Violência policial; Movimento de Mães; Periferia; Racismo.
A presente dissertação investiga as experiências e narrativas de mães que tiveram seus filhos
assassinados pela violência policial no estado do Ceará, tomando como referencial
teórico-metodológico a escrevivência, conceito elaborado por Conceição Evaristo e
apropriado por autoras negras no campo acadêmico como forma de escrita política, sensível e
situada. Partindo de uma trajetória pessoal atravessada pelo racismo e por experiências
acadêmicas de enfrentamento às estruturas eurocentradas do Direito, a pesquisa busca
compreender quem são essas mulheres antes do acontecido, como elaboram o luto, quais
impactos a perda provoca em suas vidas e de que maneira se organizam politicamente diante
da violência de Estado. Diante disso, a pesquisa foi redirecionada para a escuta de mulheres
vinculadas a movimentos politicamente organizados no estado do Ceará, em especial o
Movimento de Mães e Familiares do Curió e o Movimento Mães da Periferia. A partir de
encontros presenciais, as narrativas foram transformadas em contos, respeitando
integralmente as falas, os sentidos e as temporalidades atribuídas pelas próprias mulheres às
suas trajetórias. A análise desenvolvida aponta que o assassinato desses jovens constitui uma
das expressões mais contundentes da violência estatal, a qual não se encerra no momento da
morte, mas se prolonga na omissão institucional, na burocratização do luto, no adoecimento
dos corpos e na produção sistemática de silêncios. Ao mesmo tempo, evidencia-se o papel
central dos movimentos de mães como espaços de cuidado, memória, denúncia e resistência
coletiva. A dissertação busca, assim, contribuir para a visibilização dessas experiências e
afirmar a escrita como prática política no campo jurídico, deslocando o olhar do Direito para
os corpos e as vidas historicamente desautorizadas a falar.