Integração Aquícola-Agrícola Biossalina como Estratégia de Produção Sustentável no Semiárido
Reuso de água; eficiência produtiva; áreas de escassez hídrica; segurança alimentar; águas salinizadas.
A limitação de água em regiões semiáridas compromete a produtividade, a geração de renda e a segurança alimentar das populações locais, tornando imprescindível a busca por alternativas produtivas que utilizem de forma eficiente os recursos disponíveis, em especial as águas subterrâneas salinizadas. Nesse cenário, a integração entre aquicultura e agricultura, com o aproveitamento de efluentes aquícolas como insumo agrícola, apresenta-se como estratégia promissora para pequenas propriedades, pois permite ampliar a produtividade, reduzir impactos ambientais e fortalecer a sustentabilidade. Este estudo parte da necessidade de desenvolver soluções inovadoras que promovam a diversificação produtiva e contribuam para a melhoria da qualidade de vida em comunidades rurais do semiárido potiguar. O trabalho teve como foco a validação de um modelo de produção integrada biossalina, combinando o policultivo de tilápia vermelha (Oreochromis sp.) e camarão marinho (Penaeus vannamei) com a irrigação de espécies vegetais cultivadas sob diferentes condições de salinidade. Foram avaliados o desempenho zootécnico dos organismos aquícolas, o crescimento e a produtividade de banana, pitaia, capim-açu e mudas de mangue, bem como as interações estabelecidas entre os componentes aquícolas, agrícolas e ambientais do sistema, discutindo-se ainda os potenciais benefícios socioeconômicos da adoção desse modelo produtivo. A pesquisa foi organizada em três etapas, sistematizadas em três capítulos da tese. O primeiro capítulo correspondeu a uma revisão sistemática da literatura em bases nacionais e internacionais, que evidenciou a escassez de estudos sobre integração aquícola-agrícola com efluentes salinos, embora o uso de espécies vegetais tolerantes ao sal venha se consolidando nas últimas décadas. O segundo capítulo consistiu no levantamento e caracterização de poços salinizados em Mossoró-RN, com base em dados da ANA, CPRM, IGARN e SEADRU, considerando variáveis como condutividade elétrica, profundidade, localização geográfica, vazão e finalidade de uso, o que possibilitou avaliar o potencial produtivo para sistemas integrados biossalinos. O terceiro capítulo correspondeu à condução de experimentos com policultivo de tilápia vermelha e camarão marinho em quatro salinidades (0,0; 5,0; 7,5 e 10,0 PSU), cujos efluentes foram aplicados na irrigação de banana, pitaia, capim-açu e mudas de mangue, com monitoramento contínuo de parâmetros zootécnicos, agronômicos, fisiológicos, físico-químicos da água e propriedades do solo. Os resultados demonstraram que o capimaçu apresentou elevada produção de biomassa, mesmo a 10 PSU, confirmando seu potencial como forragem para pequenos ruminantes. A banana produziu frutos em todas as condições, embora tenha apresentado redução de desempenho sob salinidades mais elevadas. A pitaia e o mangue mantiveram crescimento consistente, destacando-se o potencial do mangue em projetos de recuperação de áreas degradadas. Além disso, a análise do solo revelou efeito fertilizante dos compostos nitrogenados oriundos da aquicultura, sem acúmulo elevados de sais. A presente pesquisa está diretamente alinhada a diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Contribui para o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, ao validar um modelo de produção integrada que amplia a oferta de alimentos em regiões semiáridas, fortalecendo a segurança alimentar. Relaciona-se ao ODS 6 – Água Potável e Saneamento, ao propor o uso eficiente de recursos hídricos salinizados e o reuso de efluentes aquícolas na irrigação agrícola. Dialoga com o ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico, ao criar alternativas produtivas em comunidades rurais, e com o ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, ao valorizar o aproveitamento de resíduos aquícolas como insumos agrícolas, reduzindo desperdícios e impactos ambientais. Também se conecta ao ODS 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima, ao oferecer estratégias resilientes frente à escassez hídrica. Reforça o ODS 14 – Vida na Água, pelo uso sustentável dos ecossistemas aquáticos, e o ODS 15 – Vida Terrestre, ao estimular a recuperação de áreas degradadas e diversificar a produção vegetal em solos irrigados com águas salinizadas. Conclui-se que o modelo integrado de produção biossalina configura-se como alternativa viável para o semiárido, ao articular ganhos produtivos, segurança alimentar e sustentabilidade socioambiental, além de alinhar-se diretamente às metas globais de desenvolvimento sustentável.